• Yuri Cesar Lima Correa

[Crítica] Um Lugar Silencioso: Parte II é excelente... Nos primeiros 40 minutos

Atualizado: há 2 dias

Os primeiros 40 minutos de Um Lugar Silencioso: Parte II (2020) são impecáveis — perigos e agravos continuam a se acumular numa tensão crescente, como se o primeiro filme nunca tivesse terminado. Claro, agora a produção sabe que a novidade já passou, então dessa vez não há motivos para esconder os monstros que atacam qualquer coisa barulhenta.


Diretor e roteirista outra vez, John Krasinski começa nos jogando de volta no Dia 1 para descobrir como a invasão alienígena teve início, o que nos dá a oportunidade de rever o falecido Lee (Krasinski, sempre bom de se olhar), e de relembrar as características marcantes da família Abbott: a assertividade de Regan (Millicent Simmonds), o instinto protetor apurado de Evelyn (Emily Blunt) e o nervosismo medroso de Marcus (Noah Jupe). Particularidades que, juntas, formam uma boa dinâmica, explicando como eles conseguiram sair vivos daquele massacre — um massacre “classificação 14 anos”, infelizmente, mas muito bem coreografado. Lá adiante, porém, o grupo é separado. Aumentam-se os riscos, a complexidade dos desafios e, curiosamente, a sensação de que vai ficar tudo bem. Pois é, a partir de certo ponto, a atmosfera de horror desta continuação não sobrevive tão bem quanto seus protagonistas.



Depois do prólogo, a história recomeça exatamente do ponto onde o primeiro filme acabou: com a fazenda comprometida, os Abbotts restantes precisam meter o pé na estrada e procurar um novo abrigo. Não demora e eles encontram Emmett (Cillian Murphy), um homem endurecido pelas perdas sofridas durante o apocalipse. A princípio contrariado, ele vai ajudar o clã a se reaproximar... O que torna sua adição à trama um tanto questionável porque: 1) fica parecendo que, sem a figura paterna, essa família se desintegrou, precisando surgir outro macho protetor para dar estrutura ao grupo (Emmett oferece literalmente isso: estrutura para que eles se abriguem); e 2) quando sai atrás de Regan, o cara acaba não fazendo muita diferença na busca dela pela fonte de uma misteriosa transmissão de rádio. Sim, os conflitos de ambos se completam e isso é muito bonitinho: a menina perdeu o pai, Emmett perdeu os filhos e, juntos, eles têm muito a oferecer um ao outro. Mas a impressão geral é a de que Emmett é mais uma necessidade do roteiro do que da Regan, pois a menina se vira bem sozinha.


Também não ajuda muito que Evelyn acabe ficando em “casa” para cuidar do bebê recém-nascido, o que, embora compreensível (ela precisa amamentá-lo), acaba reforçando toda essa ideia de família patriarcal — indo na contramão do sentimento deixado pelo desfecho do longa de 2018, no qual mãe e filha se descobriam autossuficientes para enfrentar sozinhas as ranzinzas criaturas. Não que isso estrague o filme, afinal, a franquia gira em torno de gente que cultiva milho numa cidadezinha do interior do meio-oeste estadunidense; não é como se tivessem nos prometido arroubos de empoderamento feminino, só é estranho ainda ver (em 2021) coisas como: personagens negros morrendo primeiro — isso não era motivo de piada já no final dos anos 1990? Ok, uma vez que essas representações não estão em conflito com o tom geral do projeto, podemos deixá-las de lado.



Agora, não tem como perdoar quando o roteiro desperdiça um evento chocante cuja gravidade, inclusive, é vendida muito bem pelo ator que protagoniza o momento — sabotado pelo próprio Krasinski, que pouco depois ignora as consequências diretas do acontecido. Faltou ali um tiquinho da ousadia esperada desse universo. Afinal, o primeiro filme começa com a morte de uma criança, e o impacto daquela cena perdura por todo o longa original, estabelecendo que nenhum dos personagens está seguro. E como o anterior encerra numa nota de esperança, de solução, aqui John Krasinski tenta repetir a fórmula para restabelecer a atmosfera de perigo constante. O que ele QUASE consegue, sendo bem sucedido por um tempo. Mas aí fica evidente que, em algum nível, os Abbotts estão protegidos pelo roteiro e o filme jamais consegue renovar a tensão, minando a segunda metade do projeto.


Depois que Regan e Emmett juntam forças para encontrar a estação de rádio misteriosa, Um Lugar Silencioso: Parte II vira um mingau. Um mingau gostoso, quentinho, preparado com muito amor e competência, verdade, mas ainda assim um mingauzão. Monstros e heróis passam a depender muito da sorte para que as coisas aconteçam, o que tira a graça até das ideias mais criativas — gosto particularmente da arapuca envolvendo uma rede de pesca, da estratégia com o tanque de oxigênio e do esconderijo na fornalha que pode rapidamente se transformar numa armadilha. Todas enfraquecidas não só pelo acaso, mas também pelas montagens paralelas, que são aquelas cenas que ficam pulando entre dois ou mais eventos acontecendo ao mesmo tempo. É outra coisa que Krasinski traz do primeiro filme, só que lá existiam relações de causa e efeito entre os núcleos da família Abbott. Por exemplo: dependia de Marcus ligar os fogos de artifício para distrair os monstros e permitir que sua mãe pudesse berrar em segurança durante o parto. Então ao saltar de Evelyn na banheira para o garoto correndo no milharal, a montagem criava um senso de urgência tangível. O que jamais acontece aqui porque as cenas simplesmente não têm ligação nenhuma entre si — são apenas situações de risco que, por acaso, estão acontecendo ao mesmo tempo. E sem algo que as conecte, fica só o sentimento de coito interrompido, não conseguimos aproveitar e absorver direito nem uma, nem outra.



E no único momento em que um núcleo realmente depende do outro, isso acontece só porque o roteiro quer, atrasando uma solução que já estava ao alcance dos personagens. Afinal, não faz sentido a Regan chegar NAQUELE LUGAR e não ir direto instalar a frequência que atordoa os bichos, coisa que ela só se atina a fazer quando a água bate na bunda, como se a menina não soubesse muito bem que, a cada segundo sem a transmissão, sua família estaria em potencial perigo de vida. O tropeço esvazia o desfecho do filme de qualquer comoção e faz o final parecer abrupto — ainda que amarre as pontas elegantemente, trazendo a família Abbott unindo suas características outra vez, com direito a uma nova figura paterna e tudo mais. O que não impede essa segunda metade de soar inacabada, interrompida, como se tivesse terminado cedo demais. Se pensar bem, depois dos 40 minutos iniciais, o arco de um dos personagens mais relevantes da história é ir fazer compras e voltar, e fim. Portanto, em retrospecto, aquela ótima primeira parte do filme se descola do resto, funcionando melhor como um epílogo da obra original, se alimentando de sua força. O que confere alguma coesão ao todo é o elenco, especialmente as performances de Millicent Simmonds e Noah Jupe, que concentram boa parte da carga emocional no olhar. Até porque a talentosa Emily Blunt pouco tem a fazer com a enlutada Evelyn, e o mesmo vale para Cillian Murphy, que ao menos consegue pincelar uma discreta evolução na postura do seu personagem. Nem vou comentar a participação do coitado do Djimon Hounsou.


Aliás, o pouco espaço que os atores têm para trabalhar aquelas figuras já denuncia outro aspecto dessa continuação: a pressa. Parte II consegue ser mais longo no tempo de duração e, ainda assim, soar substancialmente mais curto do que o anterior. Eu contei apenas um único momento de respiro em toda a narrativa, quando Emily Blunt tem a chance de externar um pouco da bagunça interna de Evelyn frente ao memorial daqueles que ela perdeu — não por acaso, é também o único instante que consegue ensaiar um nó na garganta. Menos humano, portanto, Lugar Silencioso II é mais ação minimalista do que horror de sobrevivência, substituindo o apuro técnico sonoro do primeiro (vencedor do Oscar) pelo espetáculo já esperado de um orçamento mais generoso. Em outras palavras, aqui troca-se o estudo do silêncio pelo excesso de barulho. Digo, esses devem ser os monstros mais hipócritas do cinema, se irritam com qualquer ruído, mas estão sempre gritando e fazendo a maior baderna. Menos quando precisam surgir por trás de um personagem sem que esse perceba, aí eles sabem ficar quietinhos. Espero que, se houver outras continuações (o que deve acontecer), os bichos sigam mais nessa linha furtiva e nos devolvam ao alto nível daqueles primeiros 40 gloriosos minutos de horror e tensão.


A QUIET PLACE PART II

EUA | 2020 | 97 minutos

Direção: John Krasinski

Roteiro: John Krasinski, Scott Beck, Bryan Woods

Elenco: Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cillian Murphy, John Krasinski, Djimon Hounsou, Scoot McNairy, Okieriete Onaodowan