• João Neto

[Crítica] Não há mais regras em Uma Noite de Crime: A Fronteira



Se formos fazer uma lista com os maiores potenciais desperdiçados em franquias da última década, The Purge, ou Uma Noite de Crime, definitivamente estaria nos dez primeiros. Um dos grandes sucessos da produtora Blumhouse, também conhecida como o novo Midas do terror, iniciou-se em um modesto filme lançado em 2013 mas cuja renda na bilheteria fez surgir não apenas 4 sequências mas uma série televisiva que durou 2 temporadas.


Explorando um Estados Unidos de um futuro não tão distante, a distopia apresenta um evento anual chamado O Expurgo, onde durante uma noite todos os crimes são liberados. Ao longo dos filmes, descobrimos que esse evento criado sob justificativa de diminuir a taxa de incidentes criminosos e melhorar a economia é um projeto de um governo totalitário para erradicar classes menos favorecidas, "equilibrando" a desigualdade social. No terceiro filme, O Ano da Eleição (2016), conhecemos uma candidata a presidência que consegue pôr um fim na noite do Expurgo. Sendo sequência direta dele, A Fronteira mostra que as coisas não foram tão bem assim.


A premissa principal dessa continuação é mostrar a insurreição dos grupos extremistas ignorando o fim do evento e instalando "O Expurgo Eterno" através do país, saindo completamente do controle e colocando os Estados Unidos em um estado de guerra. No centro de tudo, acompanhamos duas famílias: um casal imigrante ilegal do México que trabalha para uma família bem-sucedida de fazendeiros americanos. Quando as coisas apertam, eles precisam deixar as diferenças de lado para sobreviver.



A essa altura, você sabe o que esperar de The Purge, tamanha a regurgitação de suas sequências. Portanto, a mudança de regras (ou abandono delas) e intensificação dos riscos é uma manobra bem-vinda a esta altura do campeonato. Dada às tensões raciais entre seus personagens (protagonistas imigrantes x chefes racistas), tudo se torna mais simbólico quando a única chance de sobrevivência está em fugir de um país inflamado para buscar asilo... no México. A subversão no uso da fronteira é de longe a jogada mais interessante dessa sequência, principalmente o que isso significa pra as pessoas que acompanhamos.


Talvez um dos meus grandes problemas com essa franquia seja o subdesenvolvimento de personagens que deveriam ser e representar coisas. Não há exatamente uma dimensão dos discursos que tenta proferir pois prefere dar atenção à ação barata e o quão descoladas essas fantasias de assassinos podem ser. A Fronteira deixa um pouco de lado os vilões de labirintos de Halloween pra focar nas dinâmicas dos protagonistas, mesmo que siga com a sutileza de um furacão e pendendo pra resoluções à lá Green Book.


Ainda assim, existe uma estranha aparência de filme para TV (mesmo que esse termo tenha sido ressignificado em tempos de streaming, mas acho que vocês entendem o que quero dizer). O que é curioso visto que o orçamento beirou os $20 milhões, em comparação aos "míseros" $3 milhões do primeiro. Há sim, a sensação de algo maior, mas ao mesmo tempo há também um desinteresse no visual e cenas de ação imersivas talvez a que mais se destaque seja um interessante, porém previsível plano-sequência. Se a chamativa estética de cowboys e "faroeste" são partes da campanha promocional, aqui elas logo são abandonadas pelos cenários urbanos já familiares.


A Fronteira tem seu claro esforço pra ser um filme pós-governo Trump, deixando a "América" sucumbir em seu próprio ódio e intolerância. Dentro da franquia, pode ser minimamente mais interessante que seus anteriores e uma conclusão divertida, mas se um dia The Purge foi uma hipérbole distópica com potencial desperdiçado, hoje a realidade já ultrapassa a ficção e nos leva a questionar: ainda precisamos desses filmes?


THE FOREVER PURGE

EUA | 2021 | 103 minutos

Direção: Everardo Gout

Roteiro: James DeMonaco

Elenco: Ana de la Reguera, Tenoch Huerta, Josh Lucas, Cassidy Freeman, Leven Rambin, Will Patton, Zahn McClarnon



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