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  • Luiz Machado

[Sundance] Fairyland e a memória dos que se foram cedo demais



Acompanhe a cobertura oficial do Esqueletos no Armário no Festival de Sundance 2023.

Baseado na autobiografia de mesmo nome de Alysia Abbott, Fairyland acompanha a autora nos primeiros anos de infância quando se mudou com seu pai para São Francisco logo após a morte da mãe em um acidente de carro. Nos minutos que se seguem à esses eventos, o filme abraça de forma doce e delicada de uma república no início da década de 1970 aos olhos dessa criança que, sem muito conhecimento do mundo, descobre alguns segredos da vida precocemente em um ambiente rodeado por poetas, artistas e todo tipo de indivíduo queer enquanto seu pai sai do armário aos poucos para ela.


É tudo tão confortável, bonito e afável, que é impossível não se sentir envolvido e imerso dentro daquele microuniverso de singularidades destoantes, mas dispostas a amar, ensinar e dar um pouco de si para criar essa menina. Toda essa sequência inicial parece uma mistura perfeita entre o estilo de Sofia Coppola (produtora do projeto) com os filmes da década de 1970 de Arthur J. Bressan Jr. - como um Passing Strangers (1974) mais dessexualizado, por exemplo. Combinação pouco provável de acontecer, mas muito eficiente, já que estamos acompanhando não apenas o coming of age de Alysia, mas também da libertação de seu pai, o escritor Steve Abbot (Scoot McNairy).


Toda essa porção é quase como um novo Tales of the City. Com a narrativa episódica, trazendo panorama de vários personagens queer vivendo seu dia a dia com algumas participações de rostos conhecidos, como o gostoso do Cody Fern (interpretando um homem gostoso), Maria Bakalova em uma pontinha deliciosa fazendo uma das residentes da república - caracterizada como a drag daughter de Jinkx Monsoon – e Geena Davis no telefone para perguntar se o papai está usando vestidos, ao que a criança responde: "he's butch now".


É tudo tão delicioso, tão confortável, tão bonito que Fairyland acaba perdendo completamente sua força inicial quando se torna... Apenas mais uma biopic.



Todos esses personagens somem, Alysia cresce para se tornar Emilia Jones (CODA), dessa vez uma adolescente ressentida com o próprio pai por motivos enevoados que soam mal desenvolvidos pelo pulo de tempo abrupto e um tanto instável - mas tenho certeza que no livro deve ficar melhor explicado. Precisamos conhecer Alysia, suas virtudes, seus desejos, sua vida, para que o terceiro ato do filme funcione. O problema é que ela não é uma personagem interessante o suficiente para sustentar essa segunda parte. Emilia Jones se esforça, mas a personagem acaba soando como um fantasma em uma narrativa em que tudo parece mais interessante do que ela.


Quando o boom da aids entra em cena e a personagem é jogada de volta para a vida dessa comunidade, é quando ele parece encontrar seu rumo novamente. Porém é impossível não se perguntar mais de uma vez, porque exatamente estou acompanhando essa menina depois de você passar tanto tempo me apresentando personagens melhores? O próprio personagem do Steve Abbott acaba abandonado pela narrativa por boa parte do tempo. Esse acaba sendo um dos maiores males da autobiografia, justificar porque você é o centro da história... E Fairyland faz isso, um pouco tarde, mas para efeitos da obra, ele consegue manejar para trazer seu público de volta para a narrativa depois de perder seus elementos mais fortes.


O terceiro ato é devastador. É forte exatamente por se aproximar de uma versão desesperançosa do que vimos no começo. Aquela comunidade, antes tão viva, está morrendo. Os últimos vintes minutos querem te fazer chorar e provavelmente vão, e é ali que ele encontra o motivo dessa história estar sendo contada. A obra no geral, tanto livro quanto longa-metragem, é sobre manter a memória dessas pessoas que perdemos e dessa comunidade viva através dos que sobreviveram. Após sua morte em decorrências do HIV, Steve Abott foi quase que apagado pela história. Um escritor e poeta talentoso que hoje em dia sequer tem página no Wikipédia e, se não fosse pela obra de sua filha, não existiria mais.


Fairyland se reconhece como um legado. Como uma memória. Um lembrete para não esquecermos, não tornarmos os que se foram em apenas ecos sem nome do passado. Quando isso fica claro, o filme se engrandece como obra, como memória, como lembrete. Mas é uma pena que ele só justifique isso de fato no final.

 

FAIRYLAND

2023 | EUA | 118 min.

Direção: Andrew Durham Roteiro: Andrew Durham, baseado no livro de Alysia Abbott

Elenco: Emilia Jones, Scoot McNairy, Geena Davis, Cody Fern, Adam Lambert, Maria Bakalova


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