• Luiz Machado

[Resenha] O Príncipe e a Costureira: um conto sobre gênero, amor e aceitação

Atualizado: Fev 17

Em 1964, a escritora e crítica de arte Susan Sontag lançou seu mais famoso e interessante manifesto: o Notes on Camp. O livreto consistia em 58 “notas” sobre esse estilo estético antes considerado pejorativo. O que era camp era ruim, cafona e tosco. O que ela fez foi ressignificar a palavra e encontrar uma sensibilidade no que poderia ser camp, nas possibilidades desta estética como uma contramão ao que era considerado de “bom gosto”, não apenas artística mas socialmente. Nesta forma de se enxergar o mundo através dessa sensibilidade, o que se preza está longe de ser a realidade. O camp é o mais puro e exagerado artificial, a fuga do mundo real, do chamativo apenas por existir e destoar do que é aceito e valorizado. Nem preciso dizer que ao longo dos anos a sensibilidade camp cruzou diversas vezes com o queer e o LGBT, não é?


Na nona nota de seu manifesto, Susan pontua como “o andrógino é seguramente uma das grandes imagens da sensibilidade camp". "O gosto camp inspira-se numa autenticidade do gosto em grande parte não reconhecida: a forma mais refinada de atração sexual (assim como a forma mais refinada de prazer sexual) consiste em ir contra a corrente do próprio sexo. O que há de mais belo nos homens viris é algo feminino; o que há de mais belo nas mulheres femininas é algo masculino”. Ainda neste trecho, ela vai falar sobre como essa androginia tende pelos exageros e maneirismos de personalidades, assim como vestimentas e formas de se portar socialmente, fugindo muitas vezes de um conformismo de gênero imposto por uma sociedade binária e heteronormativa.


Bom, TUDO isso para dizer que: enquanto lia a belíssima graphic novel “O Príncipe e a Costureira”, não pude deixar de me lembrar do que Susan já havia dito quase 60 anos atrás. A HQ da premiada cartunista Jen Wang acompanha a história de Sebastian, que durante o dia desempenha suas funções como príncipe herdeiro da Bélgica, mas de noite assume o alter ego de Lady Crystallia, um ícone da moda nas ruas de Paris. Tudo isso com ajuda de Frances, uma costureira ambiciosa que faz seus vestidos, mas aos poucos vai percebendo que quer e merece mais.


A narrativa é doce e delicada, Jen tem uma enorme sensibilidade e carinho na hora de tratar esses personagens. Mesmo existindo há séculos, a discussão sobre a não-binariedade é recente e muitas vezes invisibilizada pela própria comunidade. Honestamente, quando comecei a leitura minha maior preocupação seria ela cair na armadilha do didatismo na hora de tratar de algumas temáticas ainda difíceis para um público não familiarizado com o debate. Mas não, ela possui um domínio tão grande do tema e um carinho tão grande por sua história que tudo soa orgânico e - como citei antes - doce. É surpreendentemente direto ao ponto, simples, diversas vezes clichê, mas tão tão bem trabalhado que o leitor não deixa de se sentir acolhido pelo pequeno universo boêmio e glamoroso criado por ela.


O traço é lindo e ajuda nesta criação de um mundo onírico em que qualquer coisa possa ser verdade, por mais que alguns personagens façam questão de tentar quebrar isso. Para minha surpresa logo nas primeiras páginas ao conhecermos Frances, a costureira, uma cliente pede para ela um vestido “horripilante”, algo que a faça parecer uma “meretriz do demônio”. Ela vira a noite preparando o vestido e no dia seguinte, na festa, a moça desfila usando seu ousado vestido preto, com penas nos ombros e uma saia transparente. Ela parece confiante e desafiadora, enquanto os outros personagens a olham boquiabertos, enojados. No quadro seguinte, o chefe de Frances a ataca, chama a obra de “abominação”, mas é exatamente aquele tipo de atitude e impacto que gera interesse em Sebastian e acaba, por consequência, gerando o encontro dos protagonistas. Não pude deixar de sorrir, cara, isso é MUITO camp.


Os impasses vividos por Sebastian e sua alter ego estão longe de ser apenas peças de uma história de ficção. Sua dúvida, seus anseios e dores são palpáveis, principalmente para qualquer leitor que seja queer de alguma forma. Eu li, ri, me senti nervoso, aliviado, apreensivo e sorri a cada nova conquista dele. Caramba, como eu me identifiquei com as lutas de um menino de 16 anos que não sabia onde se encaixar e o que poderia gostar no mundo. Claro que, no meu caso, sendo um homem branco gay cis-gênero vivendo no século XXI e com pais 100% apoiadores (ok, fui longe na descrição, mas é pra mostrar que eu sou BEM consciente de onde estou), algumas das batalhas internas puderam ser vencidas de forma mais fácil, maaaas mesmo assim, elas estiveram aqui. Aprender a se amar e se aceitar é o maior ato de rebelião que qualquer pessoa pode ter e a partir do ponto em que você se entende, ninguém pode te tirar isso, por mais que eles tentem. Você é tudo o que você tem e é só isso o que importa no final das contas e é sobre isso que essa deliciosa Graphic Novel fala.



O PRÍNCIPE E A COSTUREIRA

US | 2020 | 301 páginas

Autora e ilustradora: Jen Wang

Tradutor: Vic Vieira

Editora: DarkSide® Books



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