• João Neto

[XVII Fantaspoa] O Som da Violência busca êxtase no horror da música



Alexis (Jasmin Savoy Brown) é uma estudante que, quando pequena, sofria de deficiência auditiva. Na sua infância, ela testemunhou o assassinato de sua família pelas mãos do próprio pai, um soldado recém-chegado da guerra que teve um surto psicótico pós-traumático. Coube a ela defender-se e matá-lo, mas o evento desencadeou uma experiência única na vida da garota que aflorou seus sentidos e que misteriosamente fez com que ela recuperasse a audição. Agora, na faculdade, Alexis estuda na música uma maneira de emular as mesmas sensações sinestésicas daquela noite, mesmo que para isso ela tenha que começar a torturar pessoas em busca do som perfeito.


Baseado no curta-metragem Conductor (2018) do mesmo diretor, O Som da Violência ecoa uma forte e talvez inesperada influência dos torture-porn que tanto marcaram a década de 2000, especialmente Jogos Mortais. Sua premissa traz uma interessante e ambiciosa abordagem que, assim como sua protagonista, busca êxtase no horror da música, ao combinar elementos sensoriais com elaborados instrumentos de tortura.


Isso gera excelentes sequências de gore; uma envolvendo a máquina reminiscente do curta que original, outra protagonizada por cabeças explodindo e até mesmo um alto-falante humano (interpretem isso como desejarem). No entanto, apesar das cenas gráficas e bem produzidas, o filme falha ao apostar em um tom muito sério sem saber sustentá-lo.



Existe algo forte nessa personagem e na maneira que o filme escolhe brincar com os sentidos, explorando principalmente a força dos sons e da música. A tradução do sonoro para o visual, através de ilustrações das ondas que Alexis enxerga e sente quando comete atos de violência contra os outros, gera resultados interessantíssimos na fotografia. Mas em contraponto, para um filme que gira tanto em torno de música, a trilha sonora é péssima.


É claro que os envolvidos procuravam produzir algo sólido e sério. Mas até isso requer demais da descrença do público quando o roteiro arma situações mirabolantes para que o filme tenha a desculpa de inserir mais uma cena de tortura (a da harpa, por exemplo) ou, por algum motivo, tornar a descolada policial que investiga os crimes mais estúpida do que o normal ao não perceber que a autoria deles é de uma estudante desajeitada que nem sequer se esforça para cobrir seus rastros.


Ao subaproveitar seu maior ponto de força e não explorar a psique de sua protagonista para algo além de uma caricatura obsessiva, O Som da Violência perde a chance de se destacar dentro do gênero e criar algo mais marcante com o seu conceito. No fim das contas, a sensação é que você acabou de ver uma espécie de Baby Driver do horror, só que menos inspirado, com menos orçamento e sem uma boa trilha sonora.


O Som da Violência e muitos outros filmes fazem parte do XVII Fantaspoa, totalmente online e gratuito, disponível na plataforma Wurlak.


SOUND OF VIOLENCE

USA, FIN | 2021 | 94 minutos

Direção: Alex Noyer

Roteiro: Alex Noyer

Elenco: Jasmin Savoy Brown, Lili Simmons, James Jagger, Tessa Munro


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