• Gustavo Fiaux

[XVII Fantaspoa] Ménage transborda sexo, sangue e política



Por causa da sua tradição como crítica social, o Terror perseverou durante anos trazendo vários paralelos com o mundo de verdade, nos quais a política sempre foi um dos alvos prediletos do gênero. Ele pode abordá-la através de comparações mais diretas, ou servir como escape quando oferece uma espécie e alienação coletiva para o modelo político vigente — basta pensar nos slashers dos anos 1980.


No Brasil, o cinema de horror sempre foi marginalizado e isso trouxe à tona produções de alto teor combativo à censura, tal qual toda a filmografia de Zé do Caixão. Por isso, é instigante assistir a um filme nacional que foge da tangente e fala tão abertamente sobre política pelo viés do horror, como faz Ménage (2020), um dos destaques da 17ª edição do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa.


O filme, dirigido por Luan Cardoso, segue a história de três amigos políticos que vivem em um mundo regado de drogas e corrupção. Uma noite, eles acabam envolvidos num crime acidental, quando a prostituta que contrataram morre misteriosamente. E é aí que começa um thriller psicológico com requintes de crueldade e de surrealismo, que desce por espirais da loucura e adentra um território psicodélico.


Entre as muitas qualidades de Ménage, podemos destacar sem a menor sombra de dúvidas o talento da direção. É o primeiro longa-metragem de Cardoso, mas ele demonstra um domínio técnico assustador. A montagem (que também é assinada por ele) consegue ir e vir numa narrativa não-linear absoluta, nos deixando tão desconfortáveis quanto sentem-se os personagens que assistimos em tela. A trilha sonora e a mixagem de som colaboram com isso, criando uma atmosfera igualmente caótica e tenebrosa.



E não bastasse isso, o filme ainda lida muito bem com suas próprias críticas políticas, mesmo estilhaçando-se em rumos e tramas diferentes. É uma crítica que, a princípio, parece ir apenas no marasmo de “todos os políticos são ruins e a corrupção é o maior mal da humanidade”. Porém, conforme as histórias individuais vão se abrindo, temos uma perspectiva um pouco maior do que o filme quer dizer.


É um longa corajoso na exploração do sexo como ferramenta política. Embora tenha poucas cenas explícitas, ele esbanja uma carnalidade impressionante. Minha única crítica, talvez, seja direcionada ao papel feminino na narrativa, que é sempre secundário e objetificado. Entendo que a proposta pode ter sido justamente tecer críticas a um sistema patriarcal no qual os homens só enxergam o próprio umbigo, mas ainda assim há uma inatividade dos corpos e vontades femininas que soam desagradáveis.


Fora isso, Ménage é realmente um destaque primoroso — além de contar com várias referências e rimas visuais (intencionais ou não) com outros clássicos do horror. Em uma cena, por exemplo, temos o close de um olho que lembra bastante o plano similar em O Massacre da Serra Elétrica (1974), ou até mesmo os momentos finais que parecem algo saído direto de Alucinações do Passado (1990). O próprio primeiro ato do filme também remete a outro longa brasileiro bem-sucedido dos últimos anos, O Clube dos Canibais (2018).


Por fim, temos aqui um ótimo filme sobre as margens do sistema político brasileiro, que tece críticas tanto visuais quanto narrativas ao momento que vivemos hoje. Além disso, o projeto oferece uma breve viagem psicodélica pelos montes de cocaína e vales genitais que habitam sua duração. Sim, Ménage é muitas coisas, uma delas é extraordinário.


Ménage e muitos outros filmes fazem parte do XVII Fantaspoa, totalmente online e gratuito, disponível na plataforma Wurlak.



MÉNAGE

BRASIL | 2020 | 86 minutos

Direção: Luan Cardoso

Roteiro: Luan Cardoso, Lucca Bertollini, Ana Souto

Elenco: Lino Camilo, Francisco Gaspar, Vinícius Ferreira, Ana Souto