• João Neto

[Crítica] X - A Marca da Morte: a linha tênue entre terror e tesão



We turn folks on. And that scares them.


Ao questionar sob um olhar julgador os motivos pelo qual seu namorado aspirante a cineasta está dirigindo um filme pornográfico, a resposta que Lorraine (personagem da Jenna Ortega) recebe é algo que encapsula toda a essência de X: "porque é possível fazer um bom filme sujo". Ti West retorna de seu breve hiatus com um slasher clássico na veia dos exploitations dos anos 1970, e encontra, discute e borra a linha entre fazer um filme de terror e um filme adulto no cinema independente daquela década — afinal, eles não são tão diferentes assim.


Mesmo com a configuração clássica (um grupo de hippies em uma van ensolarada nas estradas do Texas prestes a encontrar seu destino de maneiras horríveis numa fazenda isolada), West infunde personalidade e originalidade nesta sua homenagem ao gênero, nunca permitindo que ela se resuma apenas à autorreferência pós-moderna. Não é apenas sobre recriar, é sobre imergir. Então, ao contrapor dois elementos fundamentais do subgênero slasher (sexo e violência) sob esse pano de fundo grindhouse setentista de um Estados Unidos interiorano, conservador e amaldiçoadamente americano, West traz um filme que é duplamente ultrajante, pois usa como combustível o mais puro tesão em tempos que, ao que parece, retrocedemos num estranho puritanismo disfarçado de progressismo.



Ainda que dentro de um subgênero historicamente moralista e embalado num pacote anacrônico, X não reverbera o mesmo olhar tradicional sobre o sexo; pelo contrário, aqui o sexo é tratado como algo libertador. E há até mesmo uma certa armadilha na maneira que o roteiro posiciona seus personagens principais (uma equipe de filme pornô) e seus antagonistas (um casal de velhos caipiras moribundos) que subverte o tratamento que costumamos esperar de certos estereótipos nessas produções.


O elenco, aliás, cresce suas figuras cheias de personalidade trazendo gravidade própria a cada uma delas, mas não de modo que destoem — a química do grupo é sensacional. Eles continuam sendo potenciais sacos de carne para a matança, claro, mas isso não quer dizer que você não irá criar um vínculo com eles. Da hipnótica Maxine (Mia Goth) à bombshell experiente Bobby-Lynne (Brittany Snow), passando ainda por seu parceiro de grandes dotes Jackson Hole (Scott Mescudi); indo do cineasta iniciante RJ (Owen Campbell) à sua namorada temente a Deus (Jenna Ortega) e chegando no produtor visionário (Martin Henderson). Todos eles acreditam no filme que estão fazendo e essa força dá uma nova dimensão à presença deles.


Na trama, o grupo aluga o anexo de uma fazenda pertencente a um casal de idosos, Howard e sua esposa inválida Pearl, que estão inadvertidos da natureza da produção. Conhecido pela construção slow-burn de seus filmes como The House of the Devil (2009) e O Hotel da Morte (2011), aqui Ti West reconhece em sua fantástica edição a natureza ágil e efervescente de um slasher, mas não deixa de tomar tempo para construir as relações interpessoais e de muita tensão (como também tesão) nessa primeira hora de projeção. A atmosfera Hooperiana do Massacre da Serra Elétrica está aqui desde estética até a trilha sonora incidental, que curiosamente remete à barulheira desconcertante e metálica do filme de Tobe Hooper — mas com alguns gemidos maliciosos adicionados. É tudo intencional, sujo e delicioso, mas a inspiração nunca chega a ser uma distração.



Em um momento decisivo (que também é o meu favorito), logo antes de tudo explodir em um banho de sangue perverso e seboso, West encaixa uma tocante interlude, embalada ao som de Landslide da Fleetwood Mac. É um respiro tão inesperado de simpatia e calmaria pros seus personagens, mocinhos e vilões, que encanta e, por fim, difere e define perfeitamente o propósito do seu filme.


Sem-vergonha, divertido e empolgante, X é o trabalho de um diretor experiente brincando com um campo pouco tocado de sua filmografia. Mais do que um slasher classicão safadinho, é também uma obra repleta de precisão técnica e afeto pelo movimento que está querendo homenagear: o cinema independente. Um festival de morbidez e lascívia que consegue seduzir mesmo com tanta sujeira e violência, quase como se te convidasse a participar de tudo aquilo. E num momento do cinema em que todos são bonitos, mas ninguém sente tesão, um bom filme sujo talvez seja exatamente o remédio que precisamos.



Ouça também nosso episódio especial sobre X, disponível no Spotify e em todos os agregadores de podcast.


 

X

EUA | 2022 | 105 min.

Direção: Ti West

Roteiro: Ti West

Elenco: Mia Goth, Jenna Ortega, Brittany Snow, Scott Mescudi, Martin Henderson, Owen Campbell, Stephen Ure


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