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  • Foto do escritorYuri Cesar Lima Correa

[Crítica] “Rivais” fode com o espectador

Atualizado: 27 de abr.


Tudo é sobre tênis, exceto tênis; tênis é sobre poder. Em seu novo filme, o cineasta Luca Guadagnino rapidamente supera a mera comparação entre sexo e as partidas de tênis. Antes mesmo das logos das produtoras, surgem na tela os rostos suados e contorcidos dos três protagonistas, acompanhados pelo som de seus gemidos. A metáfora não tenta ser sutil, ela é a base para o questionamento: se tudo é sexo e sexo é poder, o que se faz com esse poder? Ok, você faz homens se beijarem, claro. Mas sério, o que acontece quando três deidades, assim esculpidas por Guadagnino com todos os cinzéis que o Cinema colocou a sua disposição, chocam-se numa arena em que só cabem dois competidores? Bom, poder é controle, e enquanto essas entidades usam seu arsenal de talento, ambição e beleza para tentar controlar umas às outras, Rivais (2024) usa o magnetismo sensual dessa disputa para controlar a narrativa.


Tashi (Zendaya) é uma ex-jogadora de tênis precocemente aposentada após uma lesão. Agora ela atua como treinadora do marido, Art (Mike Faist), campeão mundial no mesmo esporte e preso numa série de derrotas causadas pelo marasmo da fama. Tentando reviver o espírito competitivo do atleta, Tashi inscreve Art em uma competição regional para jogar contra tenistas menores, onde ele acaba confrontando Patrick (Josh O’Connor), bem mais do que um adversário qualquer, como é revelado aos poucos pelo roteiro do (incrivelmente) novato Justin Kuritzkes conforme a narrativa vai e volta no tempo. Refletindo a dinâmica do jogo, a estrutura do filme bate e rebate nosso ponto de vista de um lado para o outro, igual os tenistas fazem com a bola verde na quadra durante uma partida de tênis.



A diferença é que aqui, ao invés de sets, o que está em disputa são as versões da história, e a cada novo salto entre passado e presente, novas camadas desta são reveladas, aumentando a pontuação para esse ou aquele personagem. Por exemplo: a princípio Art e Tashi são retratados como pessoas muito ricas e frias que literalmente só abrem a boca para falar de tênis (como apontado pela filha do casal, inclusive), enquanto Patrick é apresentado como um pobretão faminto e sem-teto. Isso leva a torcida do espectador em direção a este último, claro, já que nossa tendência sempre é se identificar com a parte mais vulnerável. Ponto para o personagem do Josh O’Connor, certo? Pois logo em seguida, a bola é sacada outra vez e o filme nos leva para mais de uma década no passado, quando encontramos um Art extrovertido e sorridente que em nada denuncia o homem melancólico que ele vai se tornar. Alegre e um pouco ingênuo, o jovem Art tenta fingir contentamento por uma conquista do melhor amigo (ninguém menos que Patrick), ao passo em que oculta seu ressentimento de ter sido preterido por Tashi. Agora ele é o coitadinho e, portanto, quem ganha a torcida — mas só até o próximo saque. A bola vem, vai e reencontramos Art usando seus modos carismáticos para sondar e tentar sabotar o relacionamento dos amigos, que também não se revelam tão inocentes assim… O jogo continua.



Deu pra sacar (sacou?), não é? Se os três protagonistas usam o sexo para manipular uns aos outros, e o tênis é o sexo nesse filme, então é através do formato do tênis que Rivais vai nos manipular também. Para terminar de ilustrar a proposta, lá pelas tantas Guadagnino coloca sua câmera (e, portanto, o espectador) no ponto de vista da bola, indo pra lá e pra cá ao sabor das raquetadas de Art e Patrick — não importa quem vai vencer a partida, e sim quem vai ganhar a torcida. Será o delicado e polido Art? Representação viva de uma estátua de mármore, a pele branca, lisa, sem pêlos (a pedido de Guadagnino, Mike Faist, de fato, tirou todos os pêlos do corpo — todos), os cabelos e olhos claros e dotado dos ideais fisionômicos de beleza greco-romanos; apresentado em ambientes assépticos, amplos e confortáveis, tingidos de uma suave paleta de cinzas e tons de bege, e recorrentemente recortado pela câmera como um Davi de Michelangelo — em câmera lenta, acompanhamos um plano focado na sua panturrilha trincada, que vibra sob as batidas da raquete. Ou será o confiante e irreverente Patrick? Cafajeste irresistível de peito peludo, cabelos escuros e olhos profundos, surgindo amarrotado, fedorento e sem ter onde dormir, mas não menos sexualizado — primeiro vemos sua bunda dentro da bermuda esportiva apertadinha, empinada para a tela enquanto ele espera seu cartão não ser rejeitado outra vez na recepção de um hotel meia-boca. E ainda tem a assertiva e pragmática Tashi, que levanta cedo antes do marido e cumpre sua rotina de autocuidado não por vaidade, mas pela determinação de manter operante o corpo torneado que é seu maior trunfo, como bem delineado pelo olhar analítico conferido a ela por Zendaya enquanto hidrata a pele e encara a cicatriz da lesão no joelho — a ex-jogadora não parece sentir pena de si mesma, e depois de tantos anos, enxerga naquilo apenas um recálculo de sua trajetória.



No passado, jovens ardentes instigando-se entre si, deuses do Olimpo com seus raios, tridentes e raquetes em punho; a disciplina de um controlando o hedonismo do outro, que por sua vez abria portas e minava a autossabotagem do terceiro — em uma cena fofa, Patrick e Art contam como se ajudaram a descobrir a masturbação, e é Patrick quem insiste para que os dois fiquem na festa para tentar falar com Tashi no final, que por sua vez, toma a iniciativa que os outros dois não tiveram coragem. Mas no presente, o que  encontramos é um trio de adultos incompletos, incapazes de se ajudar pela distância física e emocional entre eles. Não podendo mais jogar, Tashi vive o tênis através de Art, e sente-se frustrada pelo comodismo que estancou o companheiro — em certo ponto, nem mexe mais a cabeça para acompanhar a bola. Enquanto isso, Patrick chegou aos 31 anos sem alcançar o que se esperava do novato promissor de anos atrás. O elemento ausente? Desejo. Construídos como ideais mitológicos, para os três, tudo costumava ser sexo, e Luca Guadagnino faz questão de não deixar isso restrito ao campo das insinuações; o cineasta é explícito e inclusive chega a telegrafar o que vai fazer ao longo do filme quando, no início, mostra um dos jogadores passando pela quadra enquanto o cinegrafista da partida aponta sua enorme câmera televisiva para a bunda dele. Dito e feito, a sedução é protagonista no modo como os corpos são colocados em tela e em relação uns aos outros, seja na quadra, num restaurante ou numa sauna. Está no modo como Art e Patrick seguram suas garrafas de cerveja eretas junto à virilha durante um flerte; ou aparece quando Patrick morde uma banana encarando Art nos olhos, e quando Art morde um churros encarando Patrick nos olhos; mas também na mão boba de um que segura a perna do outro durante um momento de empolgação, e ainda nos gemidos rítmicos e selvagens de Tashi enquanto joga. A nudez, inclusive, chega quase a ser trivial aqui, já que a sensualidade se faz presente em todo o resto.



Rivais reconhece assim o desejo e a atração como forças poderosas que nos movem, capazes de alterar a trajetória de vidas tanto quanto o dinheiro, a vingança, o medo e outros propulsores que normalmente estão na base das histórias que costumam ser contadas. E se podemos ir ao cinema para rir e chorar, tomar susto e se empolgar; se permitimos aos filmes até mesmo perturbar nossa moral, enfadar nossos sentidos e brincar com a nossa inteligência, por que não um cinema que estimule o desejo? Parte tão primordial da natureza humana, o tesão é também uma resposta válida para um realizador esperar do seu público. Antes uma ferramenta e até um tema nas obras de Guadagnino, agora ele é a própria expressão que o cineasta escolhe para contar este que é seu filme mais enérgico e vigoroso — talvez, agora, o meu favorito em sua filmografia, que até então não produziu um único título que considero menos do que excelente. É claro que Rivais não inaugura a tradição dos triângulos amorosos no cinema, tão antigos quanto a própria sétima arte — podemos remontar à Era de Ouro de Hollywood com Design For Living (1933), passando por These Three (1936, uma versão censurada do texto de Lillian Hellman que William Wyler iria refilmar como forma de mea culpa em The Children’s Hour, 1961) e Philadelphia Story (1940), bem como sua refilmagem, High Society (1956), pulando os inúmeros exemplos das prolíferas décadas de 1960 e 1970, chegando até o cinema contemporâneo com E sua Mãe Também (2001), Os Sonhadores (2003), Canções de Amor (2007) e A Favorita (2019) — e acho divertido que Tashi tenha uma cópia de Crepúsculo na estante do seu quarto na faculdade.



Ou seja, a temática é antiga. A novidade aqui é transbordar a lascívia para uma nova linguagem — o que também é perfeitamente traduzido pela trilha eletrônica pulsante de Atticus Ross e Trent Reznor, que é um dos fatores que impedem o conto sobre deuses de cair no classicismo viscontiano, que poderia fadá-lo ao ostracismo geracional. Não que o filme fuja de qualquer elegância ou reverência. Errado, até mesmo no intuito de lapidar essas figuras que tornam-se sobrenaturais quando numa quadra de tênis, há um apelo ao básico; os contra-plongées (planos de baixo para cima) que engrandecem os jogadores, ou a câmera lenta que dá sobrevida e definição aos seus movimentos, por exemplo. E tem o desfecho, que segue à risca a cartilha de concisão da velha Hollywood: não é preciso se alongar mostrando o destino de cada personagem, basta encerrar o filme numa nota aguda que deixe claro o que vai acontecer com eles. É o suficiente, a narrativa cumpriu seu papel e a imaginação faz o resto. Agora que o conservadorismo volta a assolar a juventude, com seus discursos de “cenas de sexo desnecessárias” e demandas por “botões para pular momentos desconfortáveis”, Rivais traz uma atualização bem-vinda ao propor um filme classudo que, além do riso e da comoção, também busca fazer com que seu público reaja esfregando a virilha e massageando os mamilos. Ao invés de um sorriso no rosto ou lágrimas nos olhos, a ideia aqui é sair com o pau na mão — que é, aliás, exatamente como estou escrevendo esse texto. Por fim, o título original, Challengers (aqueles que desafiam, em tradução direta e descontextualizada), acaba falando também sobre a transgressão simbolizada pela vitória final; a transgressão da rede, das regras da partida e das conformações. Agora, três podem disputar essa arena. O jogo mudou.


 

CHALLENGERS 2024 | EUA | 131 min.

Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: Justin Kuritzkes

Elenco: Zendaya, Mike Faist, Josh O'Connor



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