[CrĂtica] Fale Comigo: terror da A24 sobre a grotesca desventura da adolescĂȘncia
- Alvaro de Souza
- 11 de abr. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de jun. de 2023
No sĂ©culo XIX, uma febre se alastrou pelas classes abastadas europeias: as sĂ©ances, ou sessĂ”es de mesa branca. Num perĂodo marcado pelo contraste intenso entre antigas tradiçÔes e espiritualidade com a ciĂȘncia e as tecnologias que se desenvolviam, as reuniĂ”es privadas em que era vendida a possibilidade de contatar o alĂ©m ganhou uma popularidade absurda. Entre as figuras atraĂdas pelo mistĂ©rio da conversĂŁo com o alĂ©m estĂŁo escritores famosos como Victor Hugo, Arthur Conan Doyle e a escritora lĂ©sbica Radcliffe Hall que segundo relatos passou anos tentando se comunicar com a sua falecida companheira, alĂ©m do Ăłdio de figuras como o ilusionista Houdini que passou anos da sua vida expondo mĂ©diuns fraudulentos e farsas envolvendo supostos eventos e poderes paranormais.
Essa obsessĂŁo obviamente nĂŁo ficou contida na Era Vitoriana e nem na Europa, e obviamente que a literatura e o cinema fantĂĄstico tambĂ©m nĂŁo passaram em branco por isso. SessĂ”es espĂritas aparecem com frequĂȘncia no eurohorror e ganharam uma força ainda maior com o crescente interesse no ocultismo que aconteceu nos anos 60 e 70 - Farsa DiabĂłlica (1964), Um Lugar Tranquilo no Campo (1968), Vozes do AlĂ©m (1974) e DemĂŽnio com Cara de Anjo (1977) sĂŁo alguns exemplos que vem a cabeça. JĂĄ nos Estados Unidos, a imagem mais associada com a reuniĂŁo Ă© a do tabuleiro de Ouija, uma parte central do clĂĄssico O Exorcista (1973) e figurinha carimbada de filmes de terror adolescente (curiosidade: sabia que Ouija Ă© marca registrada pela Hasbro? Sim, aquela que faz brinquedos). Algo curioso de se observar Ă© que ao passar dos anos o ritual de conversa com os mortos foi deixando de ser algo feito por nobres e burgueses europeus em suas mansĂ”es em noites nubladas e passando a ser algo de adolescentes em festas do pijama. A junção de adolescentes e tĂĄbuas de ouija jĂĄ virou um clichĂȘ em grande parte pelo seu reflexo da realidade, quem afinal nĂŁo tem ou conhece uma histĂłria de amigos brincando de jogo do copo? Ă se apropriando do apelo que esse jogo/cerimĂŽnia tem com adolescentes e o interesse deles pelo oculto e por novas experiĂȘncias que se constrĂłi Talk To Me - ou Fale Comigo.
O filme australiano Ă© o primeiro da dupla de irmĂŁos gĂȘmeos Michael e Danny Philippou e teve sua estreia no Festival de Sundance de 2023 onde jĂĄ causou burburinho (e onde a equipe do Esqueletos assistiu). Feito por diretores estreantes e com um elenco na sua maioria formada por atores desconhecidos (com exceção da veterana Miranda Otto que os nerds e os gays devem reconhecer de Senhor dos AnĂ©is e os gen z e outros gays por O Mundo Sombrio de Sabrina), Fale Comigo conquistou atenção suficiente para ter os seus direitos de distribuição nos Estados Unidos comprados pela super hypada A24 e catapultar o pequeno lançamento para lista de lançamentos aguardados do ano.

Fale Comigo tem como ponto de partida um conceito curioso. Entre os jovens começa a circular uma nova diversĂŁo: um ritual de conversa com os mortos e subsequente possessĂŁo que se torna popular principalmente pelo âbaratoâ que a experiĂȘncia causa no possuĂdo. A âbrincadeiraâ Ă© considerada segura desde que se sigam as regras bĂĄsicas, sendo a principal que o espĂrito nĂŁo pode passar mais de alguns segundos no corpo do hospedeiro. O artefato que possibilita esse ritual Ă© uma mĂŁo de cerĂąmica (que supostamente possui uma verdadeira mĂŁo mumificada em seu interior) que chega atĂ© os protagonistas seguindo a melhor tradição das boas lendas urbanas: atravĂ©s de um amigo de um amigo.
A protagonista do filme Ă© uma jovem que perdeu a mĂŁe de forma trĂĄgica, se distanciou do pai e se aproximou ainda mais da sua melhor amiga e da famĂlia desta (formada por um irmĂŁo mais novo e pela mĂŁe). Em meio aos tĂpicos dramas da juventude envolvendo bullying, rapazes tentando mostrar a masculinidade, bem-me-quer / mal-me-quer, o grupo de amigos acaba cruzando o caminho do artefato misterioso e todo o ĂȘxtase que a experiĂȘncia sobrenatural causa. Por ser um filme de terror, jĂĄ Ă© de se esperar que em algum ponto as regras serĂŁo desrespeitadas e o resultado disso Ă© grotesco.
O grotesco, com corpos se contorcendo e olhos quase saltando das Ăłrbitas, Ă© sem dĂșvidas um chamariz, mas a sua força Ă© amplificada pela forma exemplar como os irmĂŁos Philippou casam isso com o aspecto coming of age do filme. Em alguns momentos com ares de irreverĂȘncia e em outros ressaltando a imensa solidĂŁo e desespero dos personagens, Fale Comigo consegue ser surpreendentemente cruel com os seus protagonistas, mas nunca deixa de ter um olhar compreensivo para os dilemas dos adolescentes, com o quanto eles podem ser carinhosos e com o quanto podem ser autodestrutivos. O sentimento de solidĂŁo que sĂł parece ser suprido pela presença da famĂlia de amigos que criamos, paixĂ”es nĂŁo superadas e sentimentos de uma intensidade que nĂŁo teremos em outra fase da nossa vida, tudo isso Ă© mostrado sem cinismo pelos diretores que mostram um interesse genuĂno pelos altos e baixos dessa fase e veem como ela por si sĂł jĂĄ tem algo de trĂĄgico e fantasmagĂłrico.

Uma fase da vida marcada pela descoberta de novas experiĂȘncias e por um sentimento de que somos indestrutĂveis Ă© o cenĂĄrio perfeito para uma histĂłria como essa. A morte e o sobrenatural sĂŁo vistos inicialmente tanto com fascĂnio quanto com desdĂ©m, os personagens constantemente riem dos espĂritos com quem estĂŁo conversando e numa cena particularmente inacreditĂĄvel um personagem possuĂdo começa a dar um beijo de lĂngua no cachorro da casa (sim, isso mesmo que vocĂȘ leu) e a reação dos amigos Ă© rir e gravar um vĂdeo disso. O contraste dessa irreverĂȘncia que adolescentes lidam com o mundo Ă sua volta com a seriedade do que estĂŁo lidando resulta em acontecimentos desastrosos e a dolorosa descoberta dessa fase da vida de que as açÔes tem consequĂȘncias. O que nĂŁo impede os diretores de terem uma certa admiração pela inocĂȘncia dessa Ă©poca.
Os irmĂŁos Philippou iniciaram suas carreiras em um canal conjunto do YouTube chamado RackaRacka onde filmavam esquetes de ação/terror com doses de humor e esse perĂodo de experimentação claramente matura numa direção confiante, precisa e tĂĄtica, sabendo controlar o caos com agilidade e estilo. Entre seus momentos mais grotescos e mais tenros, a dupla consegue encontrar o fio entre a violĂȘncia sĂĄdica de The Evil Dead (cuja influĂȘncia nĂŁo passa despercebida) e as conexĂ”es humanas como conforto para o terror existencial de It Follows.
Ă relativamente fĂĄcil enxergar Fale Comigo como sendo apenas uma histĂłria de aprendizado sobre consequĂȘncias ou entĂŁo vĂȘ-lo como uma metĂĄfora para uso de substĂąncias na adolescĂȘncia (a protagonista quase que literalmente fica viciada em fazer essas sessĂ”es de conversa espiritual). Como o prĂłprio tĂtulo indica, Ă© sobre a constante busca por conexĂŁo que existe nesse momento tĂŁo intenso, ver o filme apenas como uma versĂŁo sobrenatural de Christiane F. ou como uma propaganda do PROERD Ă© uma visĂŁo muito rasa que apaga toda a forma inventiva com a qual ele se apropria das histĂłrias de adolescentes amaldiçoados e mescla a ternura com a crueldade, duas marcas registradas dessa fase da vida.
Acompanhe a cobertura oficial do Esqueletos no ArmĂĄrio no Festival de Sundance 2023.

TALK TO ME
2023 | AustrĂĄlia | 94 min.
Direção: Danny Philippou & Michael Philippou
Roteiro: Bill Hinzman, Danny Philippou
Elenco: Sophie Wilde, Alexandra Jensen, Joe Bird, Otis Dhanji, Miranda Otto, Zoe Terakes
