• João Neto

[Crítica] O Lobo de Snow Hollow mistura Fargo com lobisomens

Atualizado: Fev 17

Esse talvez seja um título de texto muito chamativo. Mas talvez seja a melhor forma de descrever O Lobo de Snow Hollow, segundo filme do cineasta Jim Cummings (Thunder Road), que insere a criatura clássica numa trama de detetive interiorana com personagens curiosos e muita neve. Também roteirista, o próprio Cummings estrela como o policial John Marshall, um ex-alcoólatra que tem muito no seu prato. Além de lidar com a distante filha adolescente, ele também está cada vez mais preocupado com a saúde do pai, o xerife da cidade (Robert Forster, em sua última atuação), que se reluta a procurar ajuda. Não bastasse isso tudo, assassinatos brutais começam a acontecer na pacata cidadezinha de Snow Hollow e as condições dos crimes apontam para a existência de uma fera, cercando a população de medo e paranoia, e empurrando John cada vez mais para a beira de seus limites emocionais.


Pegando inspiração em Fargo (1996) dos irmãos Coen e até A Hora do Lobisomem (1985) de Stephen King, O Lobo de Snow Hollow é uma interessante tentativa de revisitar um gênero que, convenhamos, não entrega algo memorável há tempos. No entanto, não é totalmente um filme de terror, assim como também não é totalmente um filme de comédia. Afinal, vocês devem estar se perguntando, sobre o que é esse filme? É nesse meio termo de gêneros que o roteiro de Cummings procura explorar temas como alcoolismo e envelhecimento, balanceando um humor inusitado em meio a ataques selvagens e dramas dos personagens.



No centro de tudo está um personagem à beira de um colapso mental, tentando lidar com seus problemas pessoais enquanto tenta assegurar à cidade pelo qual é responsável que eles vão pegar o responsável pelos crimes. E então outra pessoa morre. E outra. E mais duas. Numa panela de pressão, John cede não apenas ao seu vício mas às pessoas ao seu redor.


A comparação ao clássico tragicômico dos irmãos Coen pode ser óbvia (policiais de uma cidade pequena em pleno inverno lidando com um caso estranho), mas acho que sua influência vai ainda mais fundo, afinal, assim como Fargo, Snow Hollow é sobre personagens normais e humanos encontrando o pior da humanidade (ainda que seja em uma forma licantrópica). Mesmo com esse elemento fantástico, há um trabalho interessante no roteiro em seus personagens, não apenas o protagonista, mas o seu pai que não aceita que está envelhecendo (o que dá a oportunidade para o Robert Foster brilhar em seu papel final) e até mesmo sua parceira de trabalho, interpretada pela sempre ótima Riki Lindhome (A Última Casa), que traz um balanço mais centrado à tela.


Nem tudo é exatamente perfeito. Ainda que bem-intencionado, o roteiro é por vezes entroncado, principalmente quando tenta criar uma série de pistas para avançar na narrativa. Há uma revelação importante no final em que eu tive que voltar o filme depois, pois não reconheci um personagem-chave envolvido nela.



Outra coisa: Jim Cummings tem uma direção bem inspirada, mas como ator, provavelmente foi a coisa que mais me tirou do filme. Embora seu personagem tenha algumas cenas de cunho cômico (há uma ótima quando ele perde a paciência com o colega de trabalho), quando ele vai pro drama é uma coisa bem dolorosa de assistir. Você talvez possa interpretar sua performance como uma sátira, mas vai ter que forçar bastante.


No fim das contas, O Lobo de Snow Hollow é uma obra esforçada. Talvez um pouco esforçada demais. Mas é uma curiosa adição à esse subgênero, brincando com gêneros e até mesmo com expectativas. Mesmo com alguns problemas, consegue ser atmosférico o suficiente para te envolver durante seus 83 minutos de duração.


O LOBO DE SNOW HOLLOW

EUA | 2020 | 83 min.

Direção: Jim Cummings

Roteiro: Jim Cummings

Elenco: Jim Cummings, Riki Lindhome, Robert Foster, Chloe East, Jimmy Tatro


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