'Privadas de Suas Vidas' faz do banheiro a matéria-prima para o cinema queer

Não existe nada mais democrático do que o ato de cagar.
Não importam os planos, os compromissos ou os eventos do dia. Diariamente, um intestino bem regulado precisa e vai evacuar. Nascemos, crescemos, às vezes nos reproduzimos, definitivamente envelhecemos e, com absoluta certeza, morremos. No meio disso tudo, também cagamos. E cagamos muito.
Ricos ou pobres, homens, mulheres ou pessoas que não se encaixam nessas categorias, brancos ou negros, todo mundo precisa ir ao banheiro. Ainda assim, este (nem sempre) belíssimo ato tão banal quanto respirar é cercado de vergonhas, pois ir ao banheiro é, também, se colocar em uma posição de vulnerabilidade — e não faltam obras que transformam esse momento em fonte de ridículo, de cômico. Na contramão disso há, por exemplo, o emblemático episódio de Sex and the City em que Carrie peida na frente de Big pela primeira vez. Ali, o constrangimento vira uma discussão sobre intimidade. Se todo mundo faz, por que ficar embaraçado? Essa é a abordagem do filme Privadas de Suas Vidas, no qual o vaso sanitário, por onde todes devemos passar, se torna juiz e carrasco dos pecados de uma comunidade inteira.

Após uma tragédia pessoal, Malu (Martha Nowill), uma produtora de festas, tenta entrar no mercado dos “chás revelação” (aquelas festas para contar a todos os amigos e parentes qual o sexo do bebê), no intuito de capitalizar em cima de mães influencers. O problema é a relação de Malu com Gênesis, seu filhe não-binárie e de espírito revolucionário, que desaprova a pessoa que a mãe se tornou e sente-se pouco compreendide por ela. Entre a maternidade solo, o luto e as pressões da classe trabalhadora, Malu precisa enfrentar uma nova ameaça quando os vasos sanitários do condomínio começam a devorar seus moradores. O fenômeno sobrenatural passa a ser investigado por um “faz-tudo” cumprindo aviso prévio e interpretado por Otávio Müller, que ainda vai se aliar à moradora Mistikatka, a “Mística do Scat”, uma médium estadunidense apadrinhada por Bruce LaBruce (fazendo ele mesmo numa ponta) e vivida por Olívia Torres.
Na sessão de estreia do filme na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, gargalhadas ecoaram pela sala, provavelmente com força suficiente para alcançar todos os banheiros da Rua Augusta. Durante a conversa com o elenco, uma questão pairou sobre todo o bate-papo: como levar a sério um roteiro tão tresloucado e escatológico? Chandelly Braz, que interpreta uma influencer de ares “virginianescos”, ressaltou a importância de acreditar nos personagens e na história para que o filme funcione. De fato, essa é uma boa chave para tocar comédias de terror: encontrar o equilíbrio entre o escárnio e a humanidade, sem transformar os personagens em meros instrumentos da piada.
Cinema sempre foi sobre fé. Quando entramos num filme, damos um passo no escuro e aceitamos acreditar em uma história, em uma narrativa, em uma abordagem. Não precisamos que ela seja realista, mas precisamos reconhecer algo de verdadeiro nela. É o sucesso nesse quesito que permite Privadas de Suas Vidas transitar entre suas piadas escatológicas e um drama familiar em torno das questões de identidade de gênero sem reduzir nenhum dos dois a uma provocação vazia.
O filme nasce do encontro entre as sensibilidades dos diretores Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre. Enquanto Gurcius domina o horror grotesco, Vinagre encontra a dimensão queer da história na vulnerabilidade do corpo. Tudo isso estranhamente funciona e se transforma em um grande manifesto sobre as pressões que tentamos impor às nossas necessidades e sobre quem somos. É nesse contraste que os personagens escapam da caricatura.

Tanto é que, dentre tantos momentos mais chamativos, tecnicamente impecáveis e histéricos em suas concepções, minha cena favorita foi mesmo uma das mais simples. Na despedida do personagem de Otávio Müller, Privadas mergulha numa melancolia delicada, explorando um tipo particular de sofrimento, aquele que só acomete a pessoa que descobre estar certa cedo demais. O famoso "eu te avisei" nem sempre traz satisfação, já que compreender o desastre não significa ter poder para impedi-lo. E talvez não exista nada mais próximo do horror de ser brasileiro do que isso*.
*Texto escrito na última semana antes do segundo turno das Eleições de 2026.
Martha Nowill também merece destaque ao construir uma protagonista atravessada pelo luto e pelas expectativas que recaem sobre uma mãe. Por vezes, ela é bastante desagradável e difícil de se gostar. Alguém que tenta se agarrar a um universo que já não faz sentido. A honestidade de Martha, porém, é tocante o suficiente para sustentar a torcida pela personagem. No bate-papo com o elenco, ela ressaltou como encarou o roteiro como um drama, e isso é palpável em tela. Acreditamos em Malu, em sua dor e na possibilidade de mudança. O que torna ainda mais divertido vê-la exorcizar, ou melhor, evacuar todos os seus demônios sociais, pessoais e sobrenaturais.
Diversão é uma palavra adequada, aliás, para falar também do elenco de estrelas. Maria Gladys e Rodrigo Apresentador aparecem como irmãs síndicas em uma participação hilária — e a sala inteira veio abaixo com o cameo do Gustavo Scat. Para os fãs de carteirinha do cinema de horror nacional, Gilda Nomacce surge como uma rápida piada interna bastante eficiente. E você sabe que o clímax de um filme sobre cocô vai ser bom quando Marco Pigossi entra em cena usando uma bermuda branca.

Neste pot-pourri de insanidade, Privadas chega também no intestino do próprio cinema. Existe algo de digestivo no processo artístico. Absorvemos o mundo, digerimos suas contradições e devolvemos alguma coisa que nem sempre é agradável de encarar. Talvez seja na sátira que sempre teremos alguns dos retratos mais viscerais da experiência humana, justamente por ela chegar às entranhas. Ao rebaixar nossas pretensões mais nobres à materialidade do corpo, o grotesco revela aquilo que a etiqueta, a moral e as convenções tentam esconder. Cagar é democrático porque nos lembra que ninguém está acima da própria carne.
Esse filme é especial. Daqueles sobre os quais vamos passar muitos anos falando sobre. Uma bobajada que entende o potencial do terror para rir daquilo que nos constrange e transformar toda essa nossa merda em protagonista. No fim, o mundo só vai pra frente quando entendermos que todo mundo deixa algo para trás — cocô.

![[49ª Mostra] 'O Beijo da Mulher Aranha' sonha em technicolor, mas é espetáculo sem vida](https://static.wixstatic.com/media/9c160f_8b7a57f59e8a4a6ba1a7d1b419f46245~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_551,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/9c160f_8b7a57f59e8a4a6ba1a7d1b419f46245~mv2.jpg)
![[49ª Mostra] Que ninguém durma nas 'Ruas da Glória'!](https://static.wixstatic.com/media/fcae61_aaac88c7bf574e6b8051db0be856ac64~mv2.png/v1/fill/w_980,h_551,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/fcae61_aaac88c7bf574e6b8051db0be856ac64~mv2.png)
Comentários