• João Neto

[Crítica] Spiral: Um pesadelo suburbano heteronormativo

Atualizado: Fev 17

Desde que Jordan Peele redefiniu o horror (não apenas para narrativas negras, mas no geral) em 2017 com seu vencedor do Oscar Corra!, conseguimos ver projetos subsequentes que tentaram incorporar um pouco do "social thriller" - que não é nada além de um filme de gênero com algum tipo de comentário social. A denominação só ganhou uma ressurgência após o impacto da obra de Peele mas no fundo, o horror vem servindo de plataforma para críticas sociais há décadas. A Noite dos Mortos-Vivos (1968), As Esposas de Stepford (1975), O Mistério de Candyman (1992), entre diversos outros ajudaram a pavimentar o caminho para isso.


Vindo deste caminho está Spiral, um suspense suburbano canadense dirigido por Kurtis David Harder e com roteiro de Colin Minihan (O Que Nos Mantêm Vivos) e John Poliquin (Fenômenos Paranormais 2). Situado nos anos 90, o filme acompanha o casal Malik (Jeffrey Bowyer-Chapman) e Aaron (Ari Cohen), que deixam a vida agitada da cidade para se mudar para um bairro quieto com a filha adolescente, Kayla (Jennifer Laporte).


Microagressões mexem com Malik, traumatizado por um ataque homofóbico que sofreu quando jovem, levando-o a desconfiar do comportamento estranho dos vizinhos. Mas quando as coisas começam a ficar cada vez mais suspeitas, ele questiona não apenas as verdadeiras intenções da vizinhança, mas a própria sanidade.



Trabalhando com uma alegoria óbvia, mas ainda interessante, Spiral traz um twist queer em uma narrativa que normalmente é contada sob uma perspectiva hétero. Ainda flertando com outras críticas sociais - como o fato do casal principal ser interracial -, existe um escopo poderoso dentro desse filme por baixo de uma trama sobre cultos misteriosos.


Infelizmente, o roteiro não é completamente polido e não atinge seu potencial máximo. Seu impacto seria maior com algumas revisões, principalmente nos primeiros dois atos, onde além de acontecer muita coisa em cima da outra, não tendo um espaço para as cenas respirarem (também culpo um pouco a montagem), algumas atitudes dos personagens são altamente questionáveis (principalmente a insistência do protagonista de esconder coisas do marido). Há também uma gordurinha estranha no plot de um fantasma, mas dá pra relevar por resultar numa cena particularmente bizarra.


Fora isso, a construção da atmosfera sinistra em volta dos protagonistas é bem-feita (e bem representada pela atuação esforçada do Jeffrey Bowyer-Chapman). Há um certo apelo nesse tipo de premissa que, na minha opinião, você só consegue estragar se tiver um roteiro muito ruim em mãos. Ainda que não atinja o ponto que poderia, Spiral nos mantêm intrigados até o terceiro ato, onde as coisas sobem um nível e ficam bastante macabras. O final deixa um gosto meio expositivo do que estavam tentando fazer, mas funciona pois embaixo de tudo há um argumento bem inteligente. É a encarnação do medo do diferente.


SPIRAL

Canadá | 2019 | 87 minutos

Direção: Kurtis David Harder

Roteiro: John Poliquin, Colin Minihan

Elenco: Jeffrey Bowyer-Chapman, Ari Cohen, Jennifer Laporte, Lochlyn Munro, Chandra West


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