• João Neto

[Crítica] Terror e mau agouro em The Dark and the Wicked

Atualizado: Fev 17

Numa pequena fazenda do interior do Texas, uma que parece ter saído diretamente de um filme do Massacre da Serra Elétrica - com direito a moinho de vento e muitas cabras - vive um casal de idosos. Ele está com a saúde debilitada, passando seus últimos dias desacordado na cama. Ela está física e mentalmente exausta, repetindo a mesma rotina de sempre, mas algo está errado. Enquanto prepara a janta, a cadeira se move sozinha atrás dela. Eles não estão sozinhos e ela sabe disso.


Nos primeiros cinco minutos de The Dark and the Wicked, novo longa-metragem do Bryan Bertino (Os Estranhos), já conseguimos sentir o tom de que algo muito ruim está prestes a acontecer, e é esse o tom que permeia os noventa minutos restantes. A história começa quando os irmãos Louise (Marin Ireland) e Michael (Michael Abbott Jr.) retornam à casa que cresceram para se despedir do pai. Sua mãe se mostra claramente incomodada com a presença deles lá, ela os avisou que não deveriam ter ido. Enquanto a princípio, eles acreditam ser apenas teimosia e relutância dela, os dois começam a presenciar coisas cada vez mais perturbadoras na fazenda e quando tragédias se acumulam ao seu redor, eles percebem que talvez sua família esteja sendo vítima de algo bem maligno e traiçoeiro do que uma doença.



É nessa atmosfera de mal agouro que The Dark and the Wicked nos conta uma história sobre uma família em decadência, algo semelhante ao que Hereditário (2018) e Relic (2020) fizeram bem recentemente. Há temas em comum entre essas obras, como luto, envelhecimento e o papel dos familiares nestes processos. Os personagens - e por consequência, nós - são envolvidos em uma trama desconfortável e pessimista, abordada com um certo cinismo que se encaixa perfeitamente.


Se por um lado este cinismo serve para engrossar a atmosfera quase niilista e macabra da obra, por outro ele acaba também "infectando" os personagens principais, que por mais que sejam trabalhados no roteiro, não deixam de ser um pouco rígidos e difíceis de se envolver emocionalmente. Marin Ireland e Michael Abbott Jr. se esforçam para dar vida à eles e entregam cenas competentes, mas o problema está fora de seus alcances.


Desde que estreou com o excelente Os Estranhos (2008), Bryan Bertino fez alguns trabalhos não muito memoráveis - como o found footage Mockingbird e o creature-feature The Monster - mas é com The Dark and the Wicked que ele se aproxima do horror que ele experimentou naquele home invasion. Com uma direção firme, aqui Bertino consegue apresentar cenas de puro medo e ganha mais força para uma ambientação desconfortável com o auxílio da ótima trilha sonora de Tom Schraeder.



Há momentos genuínos de horror aqui. Seja a abertura que dá o tom pro resto do filme, seja no Michael acordando no meio da noite e tendo uma visão fantasmagórica flutuante no lado de fora ou seja na forma do personagem do reverendo, uma espécie de homenagem ao icônico Reverendo Kane de Poltergeist II. Ainda que em certo momento a trama pareça começar a se repetir, eles ainda funcionam.


Havia aqui o potencial para algo maior e mais impactante, mas mesmo com a faca e o queijo na mão, parece que The Dark and the Wicked se contenta em fazer o familiar. O terceiro ato termina de forma previsível, por mais que tenha uma construção sólida para algo diferente e impactante. Mas mesmo com seus problemas, há uma experiência interessante de horror neste filme e não é isso que nós, fãs do gêneros, procuramos afinal?


THE DARK AND THE WICKED

EUA | 2020 | 93 min.

Direção: Bryan Bertino

Roteiro: Bryan Bertino

Elenco: Marin Ireland, Michael Abbott Jr., Xander Berkeley


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