• João Neto

[Crítica] Mentira Incondicional: O maior desastre invernal desde "Boneco de Neve"

Atualizado: Fev 17

Acompanhando a Blumhouse de perto há alguns anos, lembro de quando ela anunciou Between Earth and Sky, um thriller com direção de Veena Sud - a mente por trás de séries como The Killing (2011-2014) e Seven Seconds (2018). O filme estreou na sessão de gala do Festival Internacional de Toronto no fim de 2018 ao lado de grandes concorrentes da award season daquele ano como "Nasce Uma Estrela" e "O Primeiro Homem", mas após uma recepção morna, passarem-se dois anos de radio silence até que agora, sob o novo título de The Lie, chegou às plataformas da Prime Video dentro do pacote Welcome to the Blumhouse, um projeto onde as duas produtoras juntaram forças pra lançar 8 filmes originais independentes. Os quatro primeiros, liderados por este e a ficção científica Black Box, estreando agora em Outubro, e os quatro restantes em 2021. Acontece que, assistindo hoje fica claro o motivo dele não ter visto a luz do sol por tanto tempo. É um desastre.


A trama, inspirada no alemão "Wir Monster" (2015), envolve o casal divorciado Rebecca (Mireille Enos) e Jay (Peter Sarsgaard), que precisam deixar as suas amarguras de lado quando sua filha adolescente Kayla (Joey King) confessa ter intencionalmente matado sua melhor amiga. A situação começa a sair do controle quando eles tentam a todo custo acobertar o crime, os levando a tomar medidas irreparáveis.


The Lie (ou como ficou chamado aqui, "Mentira Incondicional") é um daqueles filmes que colocam os personagens em uma situação delicada e moralmente questionável. Rebecca é uma advogada. Jay é um músico. Kayla é uma pirralha irritante. Em questão de horas, eles se transformam em cúmplices de um assassinato. E as motivações não poderiam ser piores.



Dentre os inúmeros problemas nesse roteiro, um dos maiores é como ele se leva ridiculamente a sério, mesmo tendo uma das reviravoltas mais idiotas dos últimos anos. Veena se esforça demais tentando sugar qualquer carga dramática que a situação pode oferecer, e ainda que o trio de atores faça um trabalho ótimo, é impossível levar tudo a sério quando a cada dez minutos os personagens tomam atitudes cada vez mais estúpidas.


Talvez isso poderia ser o charme do filme se o tom fosse outro, talvez algo mais tragicômico (e não digo isso apenas por que Fargo é um dos meus filmes favoritos e coincidentemente também se passa no inverno, ok?). Talvez até a reviravolta funcionaria se houvesse o mínimo de senso de humor na escrita. Mas a obviedade nessa produção, da fotografia gélida que de alguma forma conversa com o relacionamento do casal à linhas péssimas do roteiro como quando a garota diz que aprendeu a mentir com os pais, são apenas alguns indícios do que essa produção queria ser.


Antes mesmo de chegar na segunda metade, The Lie já apresentava algo de muito errado. Uma introdução desajeitada dos personagens, atitudes que de certa forma requereria que conhecêssemos um pouco deles para fazer sentido, e por aí vai. A outra metade só vem pra confirmar e piorar tudo. É um dos maiores desastres invernais desde Boneco de Neve (2018) - e se você viu esse, sabe o nível da coisa.


THE LIE

EUA | 2018 | 97 min.

Direção: Veena Sud

Roteiro: Veena Sud

Elenco: Mireille Enos, Peter Sarsgaard, Joey King, Cas Anvar


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