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[XVIII Fantaspoa] Verão Fantasma: um doce e histriônico pesadelo tropical

Com o tempo, toda lembrança tem gosto de verão. É possível lembrar da nossa primeira transa com o mesmo carinho com que lembramos do nosso primeiro dueto com um garoto fantasma coberto de algas e fungos marinhos — e se você acha isso muito específico, claramente te falta passar um réveillon em Garopaba, SC. A coisa é: Verão Fantasma (2022) adota essa ideia de que existe um veraneio eterno aquecendo a memória, e já nos recebe com imagens em textura de VHS que remontam uma história sombria de assassinato envolvendo muito sangue falso e máscaras medonhas; quase como um filme caseiro feito por crianças durante uma tarde particularmente morosa e quente. Oferecidas pelo jovem cineasta Matheus Marchetti (estreando na realização de longas) e sua equipe de amigos, as cenas seguintes revelam um projeto orgulhosamente independente e que foge da sina de tentar fazer um cinema "elevado" e "necessário" que tende a acometer muitos jovens diretores em busca de sua própria voz. Pelo contrário, ao tratar de uma história protagonizada por jovens isolados no litoral paulista, o longa-metragem se fortalece na segurança com que assume o exagero de cores, de música, de Sandy & Júnior, e de corpos nus repletos das mais estranhas erupções cutâneas — elementos típicos tanto do horror quanto da adolescência.


Partindo da estrutura de um coming of age, o filme acompanha Martin (Bruno Germano), adolescente excêntrico que, ao se isolar do mundo na casa de praia da família, começa a se envolver amorosamente com o vizinho Lucas (João Felipe Saldanha). Isso até serem interrompidos pela prima do protagonista e um grupo de amigos, que decidem se instalar no local enquanto a dupla investiga o desaparecimento de um garoto chamado Daniel (Daniel Paulin). Entre scooby-doozices e um tanto de sacanagem, o grupo encontra a partitura de uma ópera escrita com sangue e que, ao ser cantada da maneira correta, desencadeia uma série de eventos sobrenaturais que libertam fantasmas do passado.



Ou seja: camp. e SIM, quem conhece o Esqueletos mais de perto, sabe o quanto gostamos de brincar com o termo camp, mas nesse caso a coisa é séria — ou melhor, como diria a autora que cunhou o termo, é "anti-séria". Em Notes on Camp, Susan Sontag explica que a questão fundamental desse estilo é conseguir “destronar o sério" e é exatamente por isso que o camp é intrinsecamente ligado às sensibilidades queer. O mundo hétero-cis-branco-macho-normativo nos coloca num espaço de artificialidade, de exageros e até de monstruosidade, e depois nos cobra quando devolvemos a eles uma arte que reflete exatamente isso. Pois bem, que engulam seus Glaubers Rochas, seus Godards e Tarkoviskis, porque gente queer não pode se dar ao luxo de fazer cara feia para comer brócolis; nosso prato tem Kubrick, tem Coutinho, mas também tem John Waters, tem Hammer, tem filme feito com cartolina, com tinta guache, tem bunda, pau, vagina, peitinhos e, agora tem também Verão Fantasma, que renuncia a uma estética naturalista para mergulhar no lírico espalhafatoso; partindo de um cenário praieiro para, aos poucos, se banhar em iluminação colorida e músicas originais histriônicas (além de excelentes) que, juntas, concebem um terceiro ato histérico. O processo estético, aliás, leva junto os personagens, como a maré leva que dá bobeira, transportando-os da posição de simples arquétipos comuns do horror, para ocuparem o papel de massa uníssona de corpos que cantam e se acariciam num espetáculo musical no qual a referência máxima é O Fantasma da Ópera — em suas mais variadas versões.


Uma tsunami queer. E queer porque, apesar de basicamente lidar com um massacre, o clímax do filme recusa o pavor dos sobreviventes (que é o tom que normalmente dita o desfecho de filmes de horror), e ao invés disso abraça a melancolia dos que já morreram. Deliberadamente escolhendo o lado dos fantasmas, desses párias coloridos e insuflados de música (lembram quem?), Matheus Marchetti se faz livre para abraçar tudo que está para o lado de lá; não apenas do além vida, mas do além hétero. Sejam os romances juvenis impossíveis com garotos que conhecemos na praia, sejam os tubarões que podem nadar em piscinas e tudo mais que façam não-queers e seus manuais de cinema torcerem o nariz.


Há aqui, claro, uma grande inspiração direta no cinema italiano, com cores e texturas que poderiam ter saído direto das lentes de Bava, misturado com a musicalidade de uma pomposa ópera, mas sem deixar de lado o toquezinho abrasileirado. Cheio de um senso de humor cínico e exageros também muito característicos das chanchadas, Marchetti entende bem de onde suas referências vêm e como usá-las a seu favor. O resultado final poderia ser desastroso sem a dosagem correta, mas nesse mar o filme navega bem, casando estilos díspares do horror e criando de certa forma um unicórnio dentro do nosso cinema jovem independente.



O elenco é muito simpático e todos seguram bem seus papéis. Há uma teatralidade que assenta com o tom do filme, ressaltando os diálogos mais naturais que surgem nas interações entre eles. Bruno Germano, como Martin, centro da narrativa, surge um pouco duro no começo, mas vai crescendo junto com o personagem e constitui a chave de virada do filme, que acontece em uma deliciosamente divertida cena de karaokê. E mesmo que com pouco tempo de tela, Tuna Dwek, Tony Germano e Natacha Wiggers hipnotizam e assombram em suas pontinhas, respectivamente vivendo uma fantasma, um vendedor de picolé um tanto dúbio, e a mãe de Martin.


Com um desfecho agridoce e onírico que parece saído direto de uma obra de Jesús Franco, Verão Fantasma explora o lado mais renegado e ridicularizado do horror, da adolescência e da vivência queer: o romântico. Em um universo perigoso e cheio de violências montadas como as mais belas pinturas, ao fim da jornada ele mostra o sobrenatural como uma possibilidade para esses personagens que não tem lugar no nosso mundo; uma complexidade de sentimentos tão próprias do nosso viver, que só o cinema fantástico consegue traduzir. É aqui que nossas particularidades se encontram com a arte e os nossos horrores são expurgados por ela.


Texto por Yuri Célico e Luiz Machado.

 

VERÃO FANTASMA

2022 | BRASIL | 114 minutos

Direção: Matheus Marchetti

Roteiro: Matheus Marchetti

Elenco: Bruno Germano, João Felipe Saldanha, Daniel Paulin, Tuna Dwek, Tony Germano, Gabriela Gonzalez, Matheus Paiva, Marcos Oli, Nani Porto, Roberto Sargentelli, Natacha Wiggers


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