• Yuri Cesar Lima Correa

[XVII Fantaspoa] Get the Hell Out é divertido para quem se desapega



Quando taxamos um filme de "maluco” ou “tradicional”, nosso parâmetro normalmente é o cinema do Ocidente, que mesmo com algumas peculiaridades regionais, é todo baseado nos mesmos princípios de roteiro, quadro e montagem — dá pra estudar audiovisual no Brasil, nos Estados Unidos ou na França, mas em qualquer um desses países, eventualmente você vai acabar lendo sobre Kulechov, Bazin e os cinemas novos do pós-Segunda Guerra. Por isso, o taiwanês Get the Hell Out (2020) chega a dar uma coceira na mão do crítico; a vontade é de jogar contra o filme adjetivos como “insano”, “fumado”, “bobo” e “besta”. Todos injustos se forem usados como insulto, uma vez que o longa vem de um contexto no qual, de fato, ele é insano, fumado, bobo e besta, mas no melhor dos sentidos.


Antes de continuar, porém, a história: ela se passa no parlamento de Taiwan, onde, certo dia, uma jovem deputada em ascensão entra numa briga e senta a porrada num dos seguranças do prédio — infelizmente, ela faz isso na frente de uma dúzia de jornalistas. O caso vira um escândalo e, obviamente, ela acaba destituída do cargo. Já o segurança ganha fama instantânea, o que faz a agora ex-parlamentar induzi-lo a abandonar o posto de guardinha e concorrer como deputado para dar seguimento à luta que ela estava travando contra uma facção de políticos corruptos. Aí ele se candidata e é eleito, mas no dia da votação decisiva, o cara se vê dividido entre a amizade que passou a nutrir pela moça, e a pressão que sofre da ala corrupta do parlamento. Uma situação que só fica ainda pior quando o prédio é tomado por zumbis.


Pois é, e olha só, não quero tapear ninguém: se você ainda não está familiarizado com a linguagem popular do audiovisual do Oriente, se você nunca assistiu aos doramas da Coreia, às novelas e filmes populares chineses, ou dramas televisivos filipinos e japoneses, fica o aviso: Get the Hell Out segue a cartilha desses estilos, que são… Diferentes. Tá, mas diferente como? Bom, há um excesso de cortes, de planos e edição de imagem, a trilha é onipresente, assim como os efeitos sonoros que destacam até o mais leviano dos gestos, sem contar todo o tipo de intervenção gráfica — e eu falo de coisas desenhadas na tela mesmo: cartelas, ilustrações, símbolos e texturas. Imagina assim um Scott Pilgrim (2010) com dois raios de pó. Quem está acostumado com animes não deve estranhar tanto, afinal, é uma versão live action daquilo. Mas se na animação esses recursos sonoros e visuais não interferem necessariamente no tom da narrativa, com personagens de carne e osso a coisa é mais limitada. No live action, o caricato vira humor, e aqui esse humor beneficia e sustenta a ideia de que aquele parlamento é uma piada; um lugar repleto de figuras grotescas vestidas em seus ternos estampados e de cores chamativas.



Porém, o tiro sai pela culatra quando entram em cena os zumbis. Com tanta leveza na atmosfera do filme, eles jamais conseguem despertar medo ou tensão. Digo, não que eles precisem, mas nesse caso parecia ser o único uso que o projeto poderia fazer dos monstros. Tudo bem, pelo menos os zumbis sempre servem de metáfora, ok. Não é muito difícil dizer que eles simbolizam aqui a patota de políticos desmiolados e corruptos contaminando uns aos outros no prédio do parlamento. Tipo, dãã? Mas a piada perde a graça num pulo, e a gente é deixado com um problema que não parece oferecer grandes desafios aos protagonistas. Quando conveniente, os zumbis matam a vítima só de tocar nela, noutros momentos, os “heróis” batem papo segurando os bichos com os braços e nada acontece. Isso deslegitima a ameaça que eles poderiam representar, e ao mesmo tempo prende os mortos-vivos numa piadinha que se desgasta com facilidade: a carnificina pela carnificina. Em outras palavras: antes o filme tivesse contornado essa reviravolta e seguido somente com a história da ex-deputada, do segurança eleito parlamentar e da tensão moral e política entre eles.


Não foi o que aconteceu, porém, e a bobice segue firme e forte, agora com zumbis. Mas, por outro lado, ainda que seja difícil sentir medo ou sequer torcer pelos personagens, a linguagem meticulosamente exagerada e caricata do projeto garante um interesse contínuo sobre onde diabos aquilo vai desaguar. E para quem quiser ir um pouco mais fundo nesse assunto, dá pra ficar um bom tempo pensando em como deve ser difícil gravar e montar um filme desses. Pega como exemplo o trecho que acompanha o processo de eleição do ex-segurança. Ali dá pra ter uma ideia da quantidade assombrosa de material envolvido na montagem. São dezenas de planos em locações diferentes, com tratamentos de imagem distintos e organizados de maneira a contar uma história de ascensão, auge e queda em apenas dois minutos — no meio dos quais (juro) vi alguém apertando um mamilo alheio, o que me colocou para refletir sobre essa diária de filmagem específica. Imagina: “O que vamos filmar hoje?”, “Vamos filmar um plano em que ele aperta o seu mamilo, vai durar meio segundo na tela”.



E isso tudo é antes da longa sequência que acompanha o karaokê motivacional (com direito a acompanhamento de letra) protagonizada pelo personagem vivido por Hen-Hsuan Lin — repetindo a caricatura que interpretou no levemente homofóbico e igualmente insano Secrets in the Hot Spring (2018). Aliás, seria fácil se anestesiar quando o filme chega nessa altura, mas Get the Hell Out faz um esforço honesto para não cair na mesmice. Conforme a situação escala, a linguagem acompanha. Por exemplo, a iluminação passa a se basear mais em cores básicas (principalmente o vermelho, o amarelo e verde), as gags corporais ficam mais expansivas (gosto particularmente daquela envolvendo os seguranças do presidente zumbi), assim como o teor de “nojinho” chega ao ponto de enfocar o vilão babando na câmera em slow motion. Aliás, não fosse a intensidade de Bruce Hung e Francesca Kao na pele dos protagonistas, e talvez o terço final soasse apenas aborrecido por causa desta quantidade de absurdos, mas a dupla abraça o bizarro e vende a bobice com segurança, fazendo carão pra câmera e tudo mais — como não embarcar na deles?


Portanto, ainda que não apresente nada de muito inovador dentro do contexto de filmes populares do Oriente, Get the Hell Out (2020) é sem dúvidas coeso e coerente o bastante para se sair como diversão garantida. Pode até parecer despirocado demais para uma audiência novata, mas a bem da verdade é que o longa-metragem consegue manter um controle admirável do caos linguístico que parece compor sua narrativa. Então ninguém vai te culpar se você quiser chamar o projeto de insano, fumado, bobo e besta, só tenha em mente que ele é tudo isso sim, mas com propriedade.


Get the Hell Out e muitos outros filmes fazem parte do XVII Fantaspoa, totalmente online e gratuito, disponível na plataforma Wurlak.


GET THE HELL OUT

TAIWAN | 2020 | 95 minutos

Direção: I-Fan Wang

Roteiro: hih-Keng Chien, I-Fan Wang, Wan-Ju Yang

Elenco: Bruce Hung, Francesca Kao, Megan Lai, He-Hsuan Lin, Tsung-Hua Tou



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